Portugal: Ambientes de Mudança — Erros, Mentiras e Conquistas

“Ao longo destes 25 anos, alguns problemas ambientais revelam uma inquietante persistência na sociedade portuguesa: saneamento básico, poluição dos rios, ocupação do litoral, de bons solos agrícolas e de áreas naturais, grandes incêndios são problemas que nunca saem da agenda por nunca se chegarem a resolver”.

Estas palavras, retiradas da apresentação do seu livro, sugerem que iremos ter um excelente debate no painel “Desenvolvimento Sustentável e a Educação de Adultos” em que Luísa Schmidt irá participar no dia 18 de novembro.

Excertos da apresentação do livro “Portugal: Ambientes de Mudança - Erros, Mentiras e Conquistas”

Este livro conta uma história de 25 anos de mudanças no país através de artigos que publiquei no jornal Expresso na secção «Qualidade Devida». Este nome refletia a deslocação das minhas preocupações como jornalista e como socióloga, de um foco prioritário no consumo e na defesa do consumidor para o âmbito que me pareceu mais consequente e interessante – embora mais vasto e complexo – do ambiente. Se as minhas preocupações com a cidadania e os seus valores continuaram e se desenvolveram nesta passagem, o facto é que os contornos da noção de ambiente lançavam um desafio jornalístico e científico mais exigente.

Contudo, esta passagem não reflete apenas um trajeto pessoal.

Ela assinala também uma mudança na sociedade portuguesa, que os tempos que se seguiram revelaram ter sido afinal muito mais importante do que parecia. Lembro-me de que, inicialmente, as questões ambientais e as suas grandes causas tinham, aos olhos da opinião pública, um estatuto menor, embora benigno, sendo olhadas com certa condescendência, mas sem se lhes reconhecer muita importância. Por outro lado, as alegações ambientalistas pareciam então suspeitas para um e outro lado do grande dualismo político que se instalara na sociedade portuguesa: para uns, pareciam um desvio aos objetivos do combate político da altura; e para outros, um entrave aos negócios, e isto independentemente da ideologia ou da filiação partidária. De qualquer modo, para todos, era a introdução de um fator espúrio na política da época.

Iniciou-se então um discurso reativo, para não dizer reacionário, ainda hoje por vezes praticado, e que explora a ridicularização dos ambientalistas como infantis defensores de fantasias utópicas e de sentimentalismos imaturos. Hoje, quando nas palavras de Naomi Klein as questões ambientais obrigaram a reformular todas as problemáticas políticas herdadas do industrialismo do século 010, esse discurso displicente e irónico continua a ter os seus arautos entre nós.

Mas essa ridicularização tornou-se ela própria ridícula. O ambiente passou a ser um tema central e global onde é repensada toda a história que vivemos – a nossa e a do planeta – e todo o futuro que queremos ou poderemos ainda construir.

É assim que, sem qualquer intenção narcísica, creio poderem estes artigos documentar uma transformação importante da sociedade portuguesa. E poderem também, nessa perspetiva, servir ainda hoje para reforçar a importância da dimensão ambiental e responder aos seus opositores revelando-lhes com nitidez o ânimo primário e impulsivo com que pretenderam – e por vezes ainda pretendem – negar o evidente.

Além do mais, creio que nestes artigos estão também registados detalhes da vida social e política portuguesa que podem ser úteis e estruturantes para uma educação cívica para a democracia. Encontramos neles coisas lamentáveis como a manha, a cobardia, a ganância, a batota, os atavismos da ignorância e da iliteracia, os erros inocentes e as manigâncias calculistas, e um misto de arrogância e de cobardia de alguns poderes económicos e políticos. Mas encontramos igualmente o amadurecimento de sectores crescentes da sociedade portuguesa para os valores da participação, da informação e da mobilização cívica; encontramos os efeitos de algumas melhorias da escolaridade que escaparam a ser anuladas pelas táticas mediáticas da publicidade e da manipulação de opinião. Encontramos também os resultados de um importante período de expansão científica do país ainda não totalmente desmantelada em tempos recentes; encontramos a coragem e persistência de muitas figuras individuais, incluindo a de residentes estrangeiros, mas também de técnicos da administração que denunciaram situações, mesmo arriscando o emprego e vis processos disciplinares.

Este não é um livro de História, mas é um livro que conta histórias sobre a emergência das questões ambientais nos debates e na vida social portuguesa, bem como as transformações que a área do ambiente viveu a partir de 1990. Passara-se então de uma época pós-revolução em 1974, dominada pelos valores da conquista dos direitos políticos, cívicos e sociais, para um período em que dominaram os valores do consumo como «disciplinadores sociais». O país entrara de chofre na grande feira ocidental e, em meados de 1980, a adesão à União Europeia arrebatou a sociedade portuguesa para a euforia de todos os consumismos. Na altura, sem legislação específica e sem visão estratégica, os impactos no ambiente foram frequentemente negativos, e os problemas agravaram-se mais depressa do que a própria consciência sobre eles. Contudo, logo no começo da viragem para a década de 1990, as questões ambientais ganhavam já destaque, acompanhando um movimento internacional progressivamente projetado pelo seu reconhecimento público e político. Foi a Eco-92 no Rio de Janeiro e sempre num crescendo a partir daí, apesar de alguns recuos.
Ao longo destes 25 anos, alguns problemas ambientais revelam uma inquietante persistência na sociedade portuguesa: saneamento básico, poluição dos rios, ocupação do litoral, de bons solos agrícolas e de áreas naturais, suburbanização imparável, grandes incêndios são problemas que nunca saem da agenda por nunca se chegarem a resolver.

Ler aqui: o resto da apresentação do livro “Portugal: Ambientes de Mudança - Erros, Mentiras e Conquistas”