O Prémio Semana ALV 2016 foi entregue à Rede Valorizar

Este projeto que foi criado em 2009 e é responsável pelos processos de reconhecimento, validação e certificação de competências nos Açores.

Apresentamos aqui uma breve descrição da “Rede Valorizar” inserida na sua ficha de candidatura ao prémio.

Em 2011 a crise económica que o país atravessava começou, a exemplo do que já acontecia no territorial continental português, a ter fortes reflexos na taxa de desemprego dos Açores. A construção civil, juntamente com outros setores económicos caracterizados pelo emprego de mão-de-obra pouco qualificada, foram os mais atingidos. Num curto espaço de tempo as Agências Para a Qualificação e Emprego (Centros de Emprego) registaram mais de 2 mil inscritos não detentores do 4.º ano de escolaridade. Perguntaram à Rede Valorizar o que seria possível fazer para aumentar as habilitações deste público e, por esta via, as suas hipóteses de empregabilidade. A Rede Valorizar não sabia.

Criada em maio de 2009, a Rede Valorizar é o serviço do Governo Regional responsável pelos processos de reconhecimento, validação e certificação de competências (RVCC), a exemplo dos CNO e dos CQEP. Tendo esta missão, adultos sem o 1.º ciclo de escolaridade, muitos deles sem saber ler nem escrever, eram um desafio com o qual nunca nos havíamos deparado, mas decidimos que teríamos de fazê-lo.

O primeiro passo foi construir, com o apoio do Departamento de Educação da Universidade dos Açores, um modelo de diagnóstico que nos permitisse efetuar um levantamento das competências possuídas por aquele público-alvo. Após aplica-los, ficou para nós claro que, muito embora registassem um défice de competências-chaves, principalmente no âmbito da literacia, eram reveladas, no entanto, muitas outras, adquiridas em décadas de trabalho. Ou seja, submeter estes adultos à frequência de cursos como os EFA seria não apenas trata-los como adultos sem competências como, em termos práticos, uma impossibilidade: não existiam 2 mil vagas em cursos EFA nos Açores.

O segundo passo foi desenharmos uma resposta que permitisse ultrapassar este impasse. Foi assim que surgiram os Cursos de Aquisição Básica de Competências, mais conhecidos como Cursos ABC, onde associamos a formação a um processo de RVCC. A formação, de 300 horas, incide sobre as áreas de Linguagem e Comunicação, Matemática para a Vida, Cidadania e Empregabilidade e Tecnologias de Informação. O n.º de horas reservado para cada área varia em função das características da turma, mas todos têm em comum a obrigação de contribuírem para o Portefólio Reflexivo de Aprendizagem (PRA) de cada formando, que deverá estar concluído no final da ação. PRA este que não apenas respeita as orientações da ANPQEP, mas é igualmente construído, sempre, em suporte informático, já que a Rede Valorizar não aceita portefólios em suporte físico (papel). Aliamos, assim, as experiências de vida (aprendizagens não formais e informais) com um sistema de formação à medida (aprendizagens formais) dos nossos utentes.

Desenhada esta estratégia de certificação, colocamos em prática a terceira parte do projeto: entre setembro e dezembro de 2011 recrutamos 10 professores primários (todos eles igualmente desempregados), providenciamos-lhe formação na área da educação de Adultos – novamente com a colaboração da Universidade dos Açores – e construímos, em equipa, um manual de formação adaptado ao nosso público, ou seja, adultos com baixa literacia.

Os primeiros cursos iniciaram em janeiro de 2012 e continuam até hoje. Em 2013, expandimos a metodologia para as certificações de nível B2 (2.º ciclo) e, em 2014, para o nível B3 (3.º ciclo), todos com manuais originais para as diferentes áreas. Em 2015 os Cursos ABC passaram a ser desenvolvidos igualmente em horário noturno, para ativos empregados, e, em 2016, todos os processos de RVCC da Rede Valorizar, de nível não Secundário, são efetuados por meio dos Cursos ABC. Em 2016 realizamos 190 ações, em 7 das nossas 9 ilhas.

Como a Rede Valorizar possui apenas três salas de formação, as ações decorrem em escolas profissionais, escolas do ensino regular, bibliotecas, juntas de freguesia, casas do povo, centros paroquiais, associações culturais e qualquer outra valência local que queira connosco colaborar.

Entre janeiro de 2012 e agosto de 2016 os Cursos ABC certificaram 1378 adultos com o nível B1, 3079 com o B2 e 1418 com o B3. Os reflexos destas certificações são inúmeros, mas, a título de exemplo, podemos citar o facto de que, em agosto de 2012, a percentagem de açorianos desempregados sem o 1.º ciclo era de 6,11% do total de desempregados, enquanto a média nacional era de 5,01%. Em agosto de 2016, esta mesma percentagem, nos Açores, foi de 4,37%, a mais baixa do país, enquanto a média nacional registou 6,05%. Fonte: Estatísticas, IEFP.

Ao longo do ano foram sendo agregadas ao projeto um conjunto de boas práticas, como os projetos sociais que as turmas desenvolvem - doação de sangue, recolha de roupas, voluntariado no Banco Contra a Fome e, na Praia da Vitória, criaram, há dois anos, uma horta pedagógica que continua ainda hoje em funcionamento – ou a leitura de livros que evolui para a criação de livros, destinados aos filhos dos formandos.